Clarice sempre dizia que Damasco era uma espécie de teste psicológico coletivo disfarçado de cidade histórica. Você chegava lá achando que ia encontrar espiritualidade, poesia sufi e mercados perfumados com cardamomo. Encontrava também… mas, sobretudo, encontrava gente completamente maluca. Gente maravilhosa, sim. Porém maluca! E Clarice, como boa observadora da tragédia humana, se sentia em casa.
Na época em que morou em Damasco, ela dividiu apartamento com egípcias dramáticas, sudanesas silenciosas que pareciam panejar constantemente um golpe de Estado, uma turca que fritava peixe às seis da manhã (com as janelas fechadas) e uma malaia que acreditava que todo problema espiritual podia ser resolvido com chá de gengibre. Mas nenhuma delas se comparava à Jaiza Marrugo.
Jaiza era colombiana e refugiada – mãe solteira de filho de traficante de Cartel… isso, por si só, já fazia dela um evento geopolítico dentro da Síria.
Porque existe uma diferença importante entre uma mulher latina vivendo na América Latina e uma mulher latina vivendo no Oriente Médio. Na América Latina, Jaiza era só mais uma mulher bonita andando pela rua. Na Síria, Jaiza era praticamente uma arma de destruição emocional em massa.
O nome dela, aliás, significava “presente” em árabe. E Clarice achava aquilo profundamente apropriado. Porque Jaiza realmente parecia ter sido entregue por alguma entidade superior diretamente para testar o autocontrole masculino daquela região.
Ela tinha o tipo físico que o pai de Clarice teria descrito como “violão”. Embora, honestamente, violão fosse modesto demais. Violoncelo talvez fosse mais justo. A bunda de Jaiza tinha presença diplomática. Entrava num ambiente cinco segundos antes dela. As sírias olhavam escandalizadas – porque Jaiza jamais conseguiu uma roupa que disfarçasse a proporção entre cintura e quadril. Já os sírios… estes olhavam como quem acabara de descobrir um novo sentido para a vida.
E Jaiza parecia completamente inconsciente do efeito que causava… ou talvez fosse extremamente consciente – com Jaiza nunca dava para saber.
Ela falava espanhol atropelando o árabe num ritmo impossível e tinha uma alegria tropical incompatível com o clima emocional de Damasco. Porque Damasco era uma cidade elegante na tristeza. Até os velhos tomando chá pareciam carregar uma melancolia sofisticada.
Jaiza não. Jaiza parecia uma micareta perdida no deserto.
E então aconteceu o episódio do MP3.
Hoje em dia crianças nascem segurando iPad, mas naquela época ganhar um MP3 era um acontecimento tecnológico relevante. Principalmente na Síria, que parecia encalhada nos anos 80 da tecnologia, qualquer objeto eletrônico vindo “de fora” adquiria status quase mítico.
Um “amigo” tunisiano – e Clarice colocava aspas enormes nessa palavra – presenteou Jaiza com um MP3 prateado minúsculo.
Clarice nunca descobriu exatamente quais eram as intenções daquele homem… talvez tenha sido insanidade temporária. Porque dar música portátil para Jaiza foi equivalente a atirar gasolina num incêndio.
No primeiro dia ela ouviu discretamente, mas a lista de músicas salvas começou a aumentar… então, no segundo, Jaiza já andava cantarolando pelos corredores do prédio.
No terceiro, Damasco perdeu a paz!
Jaiza começou a caminhar pelos souqs com os fones no ouvido. E quem nunca viu um mercado de Damasco talvez não compreenda a gravidade da situação. Os souqs sírios não são simples mercados… são labirintos antigos, corredores estreitos, homens vendendo tecidos, perfumes, pistaches, sabonetes de Alepo, cobre martelado e dignidade ancestral.
Tudo muito tradicional.
Tudo muito sério.
Até surgir Jaiza…
Ela vinha rebolando entre as bancas como se o souq inteiro fosse uma passarela improvisada – igualzinha àquela senhora do vídeo viralizado que dançava, balançando até os braços, enquanto caminhava na esteira. A diferença é que Jaiza fazia aquilo sem precisar de esteira, academia ou dignidade preservada.
Porque Jaiza não caminhava… Jaiza performava deslocamento urbano.
Os quadris dela pareciam funcionar como um quarto poder da República: independentes, soberanos e completamente fora do controle do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.
Clarice andava alguns passos atrás apenas para observar o caos sociológico acontecendo em tempo real.
Os comerciantes congelavam no meio da venda.
Homens derrubavam caixas de tâmaras.
Um senhor deixou cair uma bandeja lotada de copinhos de chá.
Outro atravessou uma pilha de panelas de alumínio olhando para trás.
E Jaiza completamente entregue à música.
Às vezes era salsa, às vezes rumba… outras vezes, uma mistura latina tão absurda para aquele contexto que parecia uma provocação artística contra a estabilidade cultural do Oriente Médio.
As sírias observavam tudo entre o horror e o fascínio… porque existe um detalhe importante: mulheres sírias, especialmente naquela Damasco antiquada e conservadora, carregavam uma contenção corporal quase histórica. Havia nelas um domínio do gesto aprendido desde cedo – uma elegância econômica, disciplinada, como se cada movimento precisasse passar antes pelo crivo da tradição, da família e dos olhos da cidade inteira.
Jaiza era o oposto, ocupava espaço como quem não pediu licença ao universo. Caminhava abrindo os braços. Ria alto. Falava tocando nas pessoas. Dançava esperando ônibus.
Uma vez Clarice viu Jaiza sambando discretamente enquanto escolhia berinjelas.
E o mais impressionante era que ela não fazia isso para seduzir ninguém… aquilo simplesmente vazava dela naturalmente.
Clarice gostava particularmente dos passeios no mercado porque eram antropologicamente ricos. Os homens sírios tentavam manter a compostura religiosa enquanto Jaiza passava escutando música e balançando o corpo como se estivesse em Barranquilla durante carnaval.
Era uma batalha espiritual coletiva… os mais jovens tentavam agir normalmente, os mais velhos fingiam indignação moral enquanto claramente acompanhavam cada passo dela com a visão periférica.
Jaiza, por outro lado, jamais percebeu a dimensão diplomática de sua existência. Continuava feliz. Fazendo comida demais. Ligando música latina no volume máximo enquanto limpava a casa. Conversando com desconhecidos. Rindo sozinha.
E dançando… meu Deus, como aquela mulher dançava… até dobrando roupa.
Clarice acreditava sinceramente que se amputassem as pernas de Jaiza, os quadris continuariam se mexendo por reflexo.
Aquilo tudo parecia divertidíssimo para Clarice… principalmente porque, no fundo, Jaiza revelava algo importante: o quanto as pessoas vivem presas dentro de performances culturais rígidas até aparecer alguém completamente incompatível com o sistema.
E Jaiza era incompatível com qualquer sistema.
Inclusive com o conceito de discrição.
Certa tarde Clarice perguntou:
— Você não percebe que todo mundo olha pra você?
Jaiza tirou um fone do ouvido.
— Hã?
— Os homens, Jaiza… Todos olhando.
Ela olhou ao redor, viu meia Damasco acompanhando o balanço dos quadris dela entre as barracas de tempero, sorriu com tranquilidade, deu de ombros e disse:
— Ah, Clarice… então talvez eu tenha escolhido a trilha sonora certa.
Clarice ria incontrolavelmente – o que também não era muito adequado para uma jovem senhora…
Era impossível saber se Jaiza era inocente ou genial.
Talvez os dois.
E talvez fosse exatamente isso que enlouquecia todo mundo.
Porque Jaiza carregava uma liberdade corporal rara. Dessas que fazem sociedades inteiras entrarem em curto-circuito. Ela não parecia pedir desculpas por existir. Não diminuía o riso. Não escondia o corpo. Não domesticava os movimentos.
Num mundo inteiro treinando mulheres para ocupar menos espaço, Jaiza ocupava até o ar em volta.
Clarice admirava isso profundamente, embora jamais admitisse em voz alta.
Preferia reclamar… era seu jeito de amar as pessoas.
Shaeera Sabr
Salam! Hahahahah Clarice bem que poderia entrar de férias e Jaiza substituí-la nas narrativas hahaha. Imagine as narrativas de Jaiza hahhah. Eu me engasguei aqui rindo. MashaAllah, irmã. Foi uma experiência muito divertida ler seu texto. Aliás, é o meu preferido agora. Amei! Clarice é meio ácida, precisa conviver mais com Jaiza hahhah. Alguem pelo amor de Allah apresenta nasheed pra Jaiza hahhaha. Que tal Hasbi jabbi jallallah? Rindo litros aqui hahaha. Amei!
Bordado Enluarado
Salam, Shaeera! Que bom que a Clarice te fez rir… aliás, a Jaiza realmente daria uma excelente protagonista e, com certeza, com histórias super divertidas rs… Clarice não tira férias há bastante tempo, sua ideia é muito boa rs