Clarice sempre soube que havia três coisas capazes de humilhar um ser humano adulto: boleto vencido, elogio profissional com diminutivo e proposta de trabalho feita por gente que chama exploração de oportunidade.
Dona Lalau reunia as três…
Não era a primeira vez que a criatura aparecia no horizonte de Clarice. Dois anos antes, já tinha surgido com uma proposta tão ofensiva que Clarice quase respondeu com um PIX ao contrário: “me pague para eu ler essa audácia”. Naquela época, a indicação viera de um amigo. Agora, para mostrar que o destino também tem senso de humor de repartição pública, Lalau voltou indicada pelo ex-marido de Clarice.
Porque há ex-maridos que não terminam casamento. Continuam prestando serviços ao caos.
Lalau entrou em contato com aquela voz de quem vende curso de prosperidade no intervalo da falência moral e disse que precisava de alguém para um trabalho na área de certificação.
Certificação!
Clarice sentiu a alma pedir demissão antes dela.
Não há nada mais desidratante neste planeta do que trabalho que envolve normas, regras, formulários e exigências escritas por pessoas que aparentemente nunca foram amadas na infância. Mas Clarice estava desempregada, e bordado, infelizmente, ainda não pagava aluguel. Elogio não compra café. Curtida não paga luz. “Que lindo seu trabalho” não entra no aplicativo do banco como crédito disponível.
Então, Clarice aceitou ouvir…
O trabalho parecia simples, o que já era o primeiro sinal de que não era… Lalau e sua empresa enviaram mais de duzentos documentos confidenciais de um cliente. Duzentos. Não dois. Não vinte. Duzentos. Uma montanha de arquivos com cara de que tinham sido organizados por alguém que odeia a humanidade em PDF.
Treinamento? Não houve.
Mandaram umas mensagens explicando o que deveria ser feito, com aquela precisão típica de receita de bolo psicografada: “olha isso, confere aquilo, analisa conforme o padrão, qualquer dúvida me chama”. Claro. Qual padrão? O padrão do sofrimento.
Clarice passou dez dias trabalhando como uma moura. Vinte e oito horas de vida enterradas em documentos que tinham menos emoção que bula de remédio para verme. Ela lia, comparava, conferia, anotava, respirava fundo, pensava em fugir para o mato, lembrava que já estava no mato, voltava…
No meio disso, três reuniões online.
Três!
Reuniões chatérrimas, presididas por Lalau, aquela perua de boca moderna, dessas que parecem ter sido desenhadas por um cirurgião plástico vingativo. Clarice olhava para a tela e tentava manter a compostura, mas só conseguia pensar que a boca de Lalau lembrava o fiofó daquele macaco vermelho de documentário da natureza. A natureza, aliás, é muito sábia: quando quer avisar perigo, pinta de vermelho.
Lalau chamava Clarice de “gata”.
Gata!
Clarice, com olheiras, cabelo preso por desespero e um chá frio ao lado, sendo chamada de gata por uma mulher que entregava trabalho normativo como quem joga entulho no quintal da vizinha.
— Parabéns, Clarice, você é muito perspicaz.
Perspicaz… Como se Clarice tivesse cinco anos e tivesse conseguido encaixar o triângulo no buraco certo. Como se não estivesse fazendo análise técnica sem treinamento, sob prazo, em documentos que nem deveriam ter chegado na mão dela daquele jeito.
Mas vá lá. Clarice engolia. O desemprego faz a gente aceitar adjetivos que em outras fases da vida seriam motivo para processo espiritual.
No domingo à noite, houve a grande reunião final. Domingo. À noite. Aquele horário sagrado em que qualquer pessoa decente está tomando banho triste, vendo série ou aceitando a morte lenta da segunda-feira.
Clarice entrou na chamada. Sorriu com os dentes, porque a alma estava deitada no chão. Lalau analisou o trabalho lentamente e com precisão cirúrgica… elogiou, disse que havia poucos erros, que Clarice tinha ido muito bem, que era isso mesmo, que dali para frente mandariam determinado volume de trabalho, com prazo e remuneração.
Remuneração irrisória, naturalmente. Um valor tão magro que, se passasse de lado, desaparecia.
Mas havia promessa de melhora.
— Quando você ficar fera, a gente melhora.
Clarice pensou: “Uai, mas eu não acabei de ser chamada de perspicaz? Não disseram que quase não tinha erro?”
Mas ficou quieta. Às vezes, a educação é só uma vingança adiada.
Tudo acertado. Volume. Prazo. Valor. Continuidade. Clarice desligou a reunião com a sensação de quem tinha vendido a alma, mas ao menos parcelado em algo minimamente previsível. Foi dormir.
No dia seguinte, acordou com e-mail de Lalau.
Agora sim, pensou Clarice, vamos falar de pagamento.
Não!
Era um pedido para assinar um termo de confidencialidade.
Depois.
Depois de mais de duzentos documentos confidenciais já terem sido enviados. Depois de dez dias. Depois de vinte e oito horas. Depois de três reuniões. Depois da reunião de domingo. Depois da vida ter sido sugada por planilhas com alma de cartório.
Clarice olhou para a tela por alguns segundos. A tela olhou de volta. Nenhuma das duas tinha palavras…
Assinou.
Porque Clarice, apesar de tudo, ainda tinha mais senso de responsabilidade que a empresa inteira de Lalau montada em cima de salto plataforma.
Mas enviou junto uma resposta educada, enumerando o que havia sido combinado na reunião da noite anterior: volume de trabalho, prazo de entrega, remuneração, forma de pagamento. Tudo bonitinho. Tudo registrado. Tudo com aquela delicadeza de quem escreve “conforme conversamos” quando na verdade quer escrever “não venha se fazer de morta”.
A resposta de Lalau veio como um tapa com luva de silicone:
No momento, eles não precisariam do trabalho de Clarice. Ficaria em stand-by. O que tinha sido enviado era apenas um teste…
Um teste.
Clarice leu de novo.
Um teste?
Vinte e oito horas de trabalho com prazo exigido?
Mais de duzentos documentos reais de cliente?
Três reuniões?
Elogios?
Combinação de continuidade?
Domingo à noite?
Chamou de gata, de perspicaz, prometeu melhora quando ficasse fera, e agora era teste?
Clarice teve vontade de responder apenas: “Lalau, minha filha, teste é gravidez, glicemia e paciência. Isso foi trabalho.”
Mas não respondeu. Ainda.
Porque há momentos em que a pessoa descobre que o perdão é magnânimo, mas a vingança tem um acabamento artesanal muito superior.
Clarice abriu outro e-mail. Desta vez, para o cliente. O dono dos mais de duzentos documentos que tinham passeado pela caixa de entrada dela como se confidencialidade fosse decoração de parede.
Começou a escrever com calma. Uma calma perigosa. A calma da mulher que borda ponto por ponto, linha por linha, até formar uma frase que corta melhor que faca.
“Prezado senhor, espero que esteja bem…”
Clarice quase riu. Ninguém estava bem. Nem ela, nem os documentos, nem a ética, nem o fiofó do macaco.
Pensou em explicar tudo. Que havia recebido documentos confidenciais antes de qualquer termo. Que trabalhou por dez dias. Que só depois pediram assinatura. Que, ao questionar os termos combinados, disseram que era teste. Que talvez a empresa responsável pela certificação das paradinhas dele não fosse exatamente um farol de governança corporativa.
Clarice parou.
Estaria errada?
Talvez.
Mas errada como? Errada juridicamente? Errada moralmente? Errada esteticamente? Porque esteticamente, convenhamos, o erro começou na boca de Lalau.
Clarice respirou.
Não queria problema. Nunca quis. Clarice queria café pago, trabalho honesto e uma vida na qual bordado sustentasse uma mulher sem que ela precisasse vender horas de cérebro para empresas que confundem freelancer com cobaia.
Mas existe um tipo de desaforo que chega com crachá, reunião online e termo de confidencialidade atrasado. E quando o desaforo usa gloss, piora.
Clarice olhou para o e-mail aberto.
Apagou uma frase agressiva. Reescreveu com elegância.
Porque Clarice podia estar com raiva, mas não era amadora.
A diferença entre barraco e denúncia é revisão de texto.
E Clarice revisava muito bem.
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