A Ilusão, a IA e o Surto que Chamamos de Futuro

Clarice sempre achou que a humanidade tinha uma queda natural por desvarios. Desde criança, ouvindo os roceiros falarem de lobisomens e colocando em dúvida as vacinas, ela já suspeitava que a lucidez era uma espécie de ave migratória – rara, arredia e que só aparecia quando bem entendia. Mas nada, absolutamente nada, preparou Clarice para o espetáculo que encontrou ao pesquisar o hype da Inteligência Artificial.

Tudo começou inocente. Uma manhã tranquila no mato, tico-ticos discutindo com canarinhos – provavelmente sobre quem roubou alpiste de quem – enquanto Clarice tomava seu café passado no coador de pano, observando seu robô aspirador percorrer a casa com a dignidade de quem tem um diploma de engenharia. “Luxos essenciais”, ela justificava. Deus a livrasse de varrer o chão; isso ela deixava para a tecnologia realmente útil.

Só que aí Clarice resolveu abrir o computador. Trinta abas depois, ela estava convencida de que a humanidade havia finalmente implodido. E não de forma discreta – não! – mas com um estrondo digno de festival pirotécnico.

A conclusão dela?
A humanidade está vivendo um surto psicótico como nunca antes registrado.

E olha que o sarrafo histórico é alto. Clarice listou mentalmente as comparações:

— Idade Média, quando a Europa inteira debatia se mulher tinha alma. (Spoiler: dependia do humor do padre.)
— Época em que as mulheres que sabiam usar ervas eram queimadas porque conhecimento, para algumas autoridades, sempre foi considerado um insulto pessoal.
— E aquele período adorável em que a Igreja tinha a certeza absoluta de que representava Jesus na Terra – mesmo enquanto fazia o exato oposto do que Jesus teria aprovado, óbvio…

Mas mesmo assim… mesmo COM tudo isso, parecia que as pessoas surtavam menos do que hoje.

O que Clarice via agora era um surto globalizado, corporativo e embalado para presente: CEO’s emocionados falando de “resolver todos os problemas do mundo”; investidores enfileirando centenas de bilhões em data centers como se estivessem montando cabaninhas de acampamento; e um oceano de gente acreditando que a IA vai mudar suas vidas porque, com sorte, talvez unifique todas as fotos ruins do Instagram em uma só foto ruim e melhorada.

O pior: tudo isso partindo de um investimento de centenas de bilhões e rendendo um lucro de, no máximo, 20 bilhões. “Vinte bilhões”, repetiu Clarice, pensando com desprezo. “O equivalente a uma liquidação razoável da Ambev.”
E como se não bastasse, toda essa operação exige uma quantidade de energia capaz de deixar uma hidrelétrica deprimida, e uma sede por água que faria um camelo se benzer. Para quê?

Para fazer vídeo de gato dando voadora em leão ou um fusca ultrapassando um avião na decolagem… com inúmeros comentários impressionados.

A humanidade realmente chegou ao topo da cadeia evolutiva apenas para isso.

Era com esse tipo de pensamento que Clarice, agora oficialmente irritada, fechava as abas uma por uma. Não porque precisava de foco – Clarice nunca teve foco – mas por indignação mesmo. Cada aba fechada era uma forma simbólica de protesto, como quem empurra uma porta na cara de um vendedor insistente.

Depois desligou o vídeo do Kobori, que naquele dia estava especialmente inspirado na arte de deixar claro que não tem muito jeito… vai dar merda! “Pelo menos isso ele faz bem”, admitiu Clarice, apesar de achar que ele ainda pegava leve demais.

— O mundo está acabando – ela resmungou – mas pelo menos temos vídeos de gato ninja.

Foi então que Clarice olhou para o canto da sala, onde seu bastidor de bordado esperava. A madeira antiga, a linha cor-de-terra, o tecido esticado como a pele de um tambor. Clarice suspirou. Nada como bordar para equilibrar o pH da alma.

Sentou-se diante da janela. O aspirador robô passou por ela com um bip animado, como quem diz “desculpa o atraso, patroa, tinha um pó rebelde ali no canto”.

Clarice pegou o bordado e começou a traçar, com movimentos firmes, as primeiras letras de um panô que pretendia pendurar na porta de casa. O texto escolhido era de Rumi, porque se a humanidade insiste em surtar, alguém precisa ao menos oferecer palavras bonitas:

“Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta?”

Enquanto bordava, Clarice refletia: que prisão era essa, afinal? A prisão do hype? Da superficialidade que transformou gente em algoritmo ambulante? Da incapacidade de contemplar o pôr-do-sol sem pensar no ângulo perfeito da foto?

A prisão do vazio, talvez.

Do desespero eterno de parecer interessante enquanto se esgota por dentro. Da pressa, da distração, da necessidade de acompanhar uma tecnologia que ninguém entende, mas que todos usam porque “vai que”…

Clarice sorriu com sarcasmo.
“Talvez a porta esteja aberta, mas o povo gosta mesmo é de bater a cabeça na parede.”

Ela deu o último ponto, cortou a linha com os dentes e admirou o panô. A frase brilhava suave sobre o linho. Simples. Verdadeira. Livre da afetação digital.

Clarice levantou, pendurou o panô na porta e foi fazer a única coisa que ainda fazia sentido naquele dia:
um bolo de milho, enquanto observava o vento balançar as árvores – que, ao contrário dos humanos, continuavam perfeitamente equilibradas, sem crise existencial, sem hype e sem vontade de produzir vídeos virais.

E assim, entre bordados, sarcasmo e um robô aspirador que trabalhava mais do que qualquer CEO, Clarice concluiu: o mundo pode surtar à vontade. Ela, ao menos, permaneceria intacta no seu mato, com a porta bem aberta.

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2 Comentários

  1. Ligia "a" Maria

    Clarice, seu nome já diz tudo. Trazer clareza, aquela que clareia.
    Hoje eu estou meio empoeirada e cansada de lutas pequenas batalhas contra a canalhice, mas não pude deixar de receber sua réstia de luz pra provar que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez.
    E é óbvio que sua porta me inspira a contínuar alçando vôo, mesmo que solo. Clara, Clarice, Clareia as Marias que as vezes em seus afazeres não têm que fale por elas.

    • Que bom ter você por aqui, Ligia, amiga querida… é isso aí, vamos continuar voando, esse voo que parece solo, mas não é não! Estamos todas aí, juntas: clarices, marias, ligias e leticias… beijo!

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