“Vida. Desenho emaranhado. Desemaranhar a trama intrincada, miúdo balé de agulhas e linhas desenhando num pano histórias silenciosas, contadas pelas mãos. Os lábios, cerrados. Os olhos, na alma. Em cada ponto, um canto. O bordado fotografa filigranas do invisível. Tece raios de sol, revela aos olhos o peixe no fundo d’água, pinta luz da lua em céu cor de rosa… Suas flores não secam nem murcham. No bordado, tudo é maravilhamento. Arrebata-me também o avesso, espelho imprevisível dos nós cegos do meu peito riscado de paisagens. Por horas a fio, o tempo cavalga os novelos, como um beduíno palmilhando o deserto eterno e monocromático. Um bordado, o oásis! E no fim, resta ao tecelão o coser dos dias, seguindo, ponto a ponto, num quadro inacabado onde toda imagem desmorre em matizes nascidas no tear de Deus.” (Fernanda de Paula)
Outro dia, enquanto tomava café frio na mesa da cozinha, o algoritmo de Clarice lhe passou mais uma rasteira indicando uma entrevista… Era dessas leituras que não passam…
A internet daqui de casa é como aquelas relações tóxicas que a gente insiste em manter por costume: metade do mês funciona, na outra metade eu fico olhando…
Clarice sempre achou que a humanidade tinha uma queda natural por desvarios. Desde criança, ouvindo os roceiros falarem de lobisomens e colocando em dúvida as vacinas, ela já…
Eu não lembro de quase nada da minha adolescência. Sério. Se você me perguntar onde foi a viagem de formatura, vou responder com segurança: “Foi.” Agora, para onde,…
Foram dois dias. Apenas dois dias sem internet, mas o suficiente para eu acreditar que o mundo era um lugar habitável. Desligaram o wi-fi aqui na reserva ecológica…
Clarice não é boazinha. Nunca foi.Tem um tipo de solidariedade que vem mais da inteligência do que do coração. É que, vivendo onde vive, cercada de desocupados, viciados…
Clarice já deveria ter aprendido a lição: ex-marido é como aquela gaveta da cozinha cheia de talheres tortos, elásticos frouxos e abridores de lata enferrujados. Não serve pra…
Clarice nunca escolheu a queda, mas sabia cair com alguma elegância. O cliente fixo – aquele que parecia tão garantido quanto o imposto de renda – desapareceu como…
Clarice já não se concentrava em nada. Nem nas coisas boas – que, convenhamos, hoje em dia já são poucas – nem nas ruins, que continuam se multiplicando…