A internet daqui de casa é como aquelas relações tóxicas que a gente insiste em manter por costume: metade do mês funciona, na outra metade eu fico olhando pro modem como quem espera mensagem de ex. Pisca uma luzinha, apaga outra, faz um barulhinho suspeito. Eu, que nunca fui muito boa em terminar nada – relações, bordados, listas de tarefas – também não termino com a internet. Afinal, foi a única empresa que aceitou puxar cabo até o meu esconderijo no fim do mundo.
Porque, sejamos sinceros: qual empresa que se preze olha pro mapa, vê “casa da Clarice” lá num rabisco de estrada de terra, cercada de árvore, ribanceira e promessa de deslizamento, e pensa: “É pra lá que eu vou levar fibra óptica”?
Nenhuma!
Só a desesperada da região, a empresa que deve ter olhado pro relatório de metas e dito: “Se a gente não vender um plano novo, fecha o trimestre no vermelho. Liga pra mulher do fim da estrada.”
E eu aceitei, claro. A iludida sempre aceita.
O problema é que as catástrofes climáticas de fim dos tempos resolveram virar personagem fixo na minha rotina. Aqui não existe mais “chuva”. Existe “evento climático severo com rajadas de vento dignas do armagedão”. O céu fecha a cara, o vento uiva, as árvores começam a dançar aquele forró frenético que termina em galho caído, poste torto e cabo arrebentado.
Dessa vez o recorde foi bonito: 7 dias sem luz, 17 sem internet. Acho que, se tivesse campeonato mundial de precariedade de infraestrutura, esse micro pedaço de planeta levava medalha de ouro.
No primeiro dia sem luz, eu ainda estava otimista. “Ah, daqui a pouco volta.” Tomei café coado no fogão a gás, respirei fundo e tomei banho gelado, dando pulinhos e gritando… fiz cara de quem está vivendo um retiro espiritual forçado. No segundo dia, já comecei a achar que talvez Deus estivesse me dando um recado; no terceiro, concluí que, se era recado, a letra era péssima, porque eu não estava entendendo nada.
Uma semana depois, quando finalmente a luz voltou – com aquele drama de lâmpadas piscando, geladeira roncando ressuscitada, e o som espiritual do “bip” do difusor – a internet decidiu que não estava pronta para esse retorno. Ficou lá, morta. Todas as luzinhas apagadas, igual minha paciência.
Saí andando pela estrada, para achar um ponto onde havia sinal de rede – normalmente aquele H+, porque 4g ahhhh, nem em sonho… entrei em contato com a empresa, claro… Depois de meia hora ouvindo uma voz robótica me chamando de “senhora Clarice” e pedindo pra eu desligar o modem da tomada por 10 segundos (como se eu já não tivesse feito isso 538 vezes), consegui falar com um ser humano.
— Vamos agendar a visita do técnico, senhora.
O técnico. O homem mítico. O ser solitário que vaga pelas estradas com um rolo de cabo no ombro e um olhar cansado de quem já viu muitos modems queimados na vida. Ele, o único intermediário entre a minha casa e o mundo dos vivos digitais.
— Ele passa aí amanhã — disseram.
“Amanhã”, no calendário da empresa, é um conceito filosófico, não uma data.
Enquanto isso, o mundo desmoronava. Literalmente. Uma árvore caiu na estrada, levou o barranco junto e decidiu que fazia mais sentido deitada atravessada no caminho do que em pé cumprindo função de árvore. A estrada, que já era mais emocional do que física, virou um cenário de rally off road.
Eu olhei pra minha Montana de quase vinte anos, com a lataria cansada e a suspensão que range quando passa num quebra-molas, e pensei: “Você não merece isso.” A bichinha já me aguentou em cada aventura que seria facilmente classificada como maus-tratos automotivos; não ia ser agora que eu ia obrigá-la a enfrentar trilha de lama, pedra solta e precipício de brinde.
Resultado: incomunicável, ilhada e sem qualquer sinal de wi-fi, 4G, fumaça ou pombo-correio.
A sorte – porque alguma o universo deixa – é que eu bordo.
Quando o mundo desliga, eu ligo a agulha. A casa em silêncio, só o som do fio passando pelo tecido, a linha colorida desenhando coisas que nem sempre eu planejei, mas que acontecem assim mesmo. Dessa vez, com o apocalipse batendo na porta e o algoritmo descansando longe de mim, eu decidi bordar o mapa da Palestina inteirinho.
Ponto a ponto, linha a linha, fui preenchendo aquele pedaço de tecido como se fosse um jeito de não enlouquecer. Enquanto o vento lá fora gritava e os cabos balançavam, eu desenhava fronteiras, cidades, nomes que a gente só escuta em boletim trágico de notícia, mas que são lugares onde gente respira, ama, cozinha, reclama da vida e, com certeza, também não tem internet.
Lembrei que o tempo sem conexão é diferentão… De repente, o dia parece maior. Não tem notificação interrompendo pensamento, não tem vídeo curto roubando meia hora, não tem discussão imbecil na internet para você observar com ódio e fascínio. Tem só você, o barulho do vento, o bordado, a casa, seus pensamentos – que às vezes são piores que a discussão imbecil, é verdade, mas ao menos são seus.
Claro que, depois de uns dias, eu já estava conversando com o modem desligado como se ele fosse um animal de estimação em coma. “Força, meu filho. O técnico vem.”
E o técnico veio. Um dia, sem aviso, sem trombeta, sem nada. Apareceu na curva da estrada como uma miragem, com cara de quem já tinha passado por outros infernos geográficos. Olhou o poste, mexeu no cabo, subiu, desceu, fez aquela cara de “hum hum” técnica que significa “não faço a menor ideia, mas vou fingir que sei”.
Meia hora depois, uma luzinha verde acendeu no modem. Outra piscou. O wi-fi ressuscitou.
E eu, como boa humana incoerente, em vez de agradecer e seguir feliz, voltei à rotina habitual: abrir rede social e me arrepender imediatamente.
Porque bastou a internet voltar para eu descobrir que até a Fernanda Torres, falando em entrar com os dois pés em 2026, tinha virado questão política. Você pisca e pronto: algum imbecil de extrema direita decidiu que pular com os dois pés no ano novo é sinal de degeneração moral, plano comunista, ritual pagão ou ameaça à família tradicional brasileira.
Enquanto eu passei 17 dias sem internet, achei que o mundo lá fora estava fervilhando de acontecimentos profundos. Quando finalmente voltei a ver o feed, percebi que era o mesmo circo de sempre: gente gritando por nada, transformando qualquer frase aleatória em guerra cultural, discutindo se “dois pés em 2026” é afronta, profecia, ou motivo para impeachment imaginário.
E aí eu fiquei ali, sentada, com o wi-fi funcionando, olhando pro bordado do mapa da Palestina ainda estendido sobre a mesa. Tanta linha, tanto cuidado, tantas horas investidas numa coisa que ninguém além de mim ia ver naquele momento. E, ao lado, o celular vibrando com notificações de um mundo que parece cada vez mais barulhento e cada vez menos inteligente.
Nessas horas, a pergunta vem sozinha, sem eu precisar bordar:
não seria melhor continuar incomunicável?
Ligia "a" Maria
Querida Clarice, não sei ainda quão boa é sua volta, porque não sei quanto tempo leva escrevendo essas crônicas tão boas, que irão se tornar livro e também trazer bons auspícios. Aproveito que agora tem um portador, para também mandar notícias, aqui na terra tá jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock and roll. Num dia chove noutro dia bate sol, mas o que eu quero é repetir é que a coisa aqui está preta. Como Maria e Shakira, nasci com pés descalços e agora desfruto o prazer de botar meus 2 pés num par de “chinelas vão de dedos” , porque vão-se os anéis ( até de Saturno) mas ficam os cujos. Agora, por sobre nossas cabeças, uma nuvem digna de manada de hipopótamos, avisando que a coisa aqui está preta, talvez pela falta de luz, talvez pela ignorância… Mas como amiga de Clarice, continuo a sonhar e plantar dias melhores pra gente!!
Bordado Enluarado
é isso aí, Maria… mesmo com tudo contra, continuaremos com nossas “chinelas”, e ai de quem quiser que a gente calce um salto!!!! rs