Clarice já não tinha idade para se surpreender com homem, mas ainda tinha sistema nervoso, o que era um inconveniente… Bastava abrir o celular, ouvir uma conversa na fila do caixa do mercado ou existir em espaço público por mais de sete minutos para topar com alguma nova demonstração do esporte favorito da civilização: odiar mulheres com convicção teórica e cara de quem se acha muito lúcido.
Naquela manhã, o algoritmo serviu logo cedo um rapaz de vinte e poucos anos, mandíbula tensa, microfone caro e inteligência emocional de colher de pedreiro, explicando que mulheres modernas estavam “destruindo a masculinidade”. Clarice tomou um gole de café e pensou que, se a masculinidade de um sujeito podia ser destruída por uma moça pagando o próprio aluguel, talvez não fosse masculinidade…
O curioso, pensou Clarice, é que essa aversão às mulheres nunca veio com a honestidade de se assumir aversão. Homem raramente diz “eu odeio mulheres”. Não. Ele prefere frases com perfume de tese: “a natureza feminina”, “o valor da mulher”, “o papel tradicional”, “estatisticamente falando”. O ódio, quando quer respeito social, aprende a usar PowerPoint.
Clarice imaginou o homem das cavernas, aquele ancestral tão celebrado por certa gente como se fosse modelo de virilidade. Lá vinha ele, arrastando a “amada” pelos cabelos, muito másculo, muito primitivo, muito incapaz de formular um sentimento sem virar agressão. Séculos depois, os herdeiros espirituais dele continuam iguais, só trocaram a clava por podcast. A evolução, em certos casos, foi só estética.
Depois vieram os séculos finos, aqueles em que homens de roupas pesadas e ideias leves decidiram discutir se mulher tinha alma. Clarice sempre achou isso maravilhoso no pior sentido. O cidadão saía de casa, comia mal, tomava banho uma vez por semestre e ainda se sentava solenemente para decidir se a mulher – que já estava plantando, medicando com ervas, parindo, costurando, limpando, enterrando e sustentando o resto do mundo – possuía alma. O homem nunca perdeu a capacidade de ser inútil com autoconfiança e autoestima invejáveis.
Na Revolução Industrial, o figurino mudou, mas a lógica continuou com o mesmo cheiro de porão. Mulher servia para trabalhar até cair, ganhar menos, sofrer mais e, se morresse trancada numa fábrica em chamas, ainda tinha quem chamasse aquilo de fatalidade histórica… aí faziam um “dia das mulheres” para comemorar a data. Fatalidade seu ovo!
Clarice detestava esse truque semântico que transforma violência em paisagem. Como se a barbárie apenas “acontecesse”, coitada, escorregasse sozinha por uma escada e caísse em cima de centenas de mulheres.
O problema do machismo, pensou Clarice, é que ele nunca foi só uma opinião. Opinião é preferir coentro ou salsinha. O resto é projeto de poder com cara de costume. E projeto de poder, quando começa a falhar, fica mais raivoso.
Talvez por isso o espetáculo atual seja tão barulhento.
As mulheres, apesar de tudo, arrancaram alguns centímetros de chão. Não o céu, note-se. Nem o trono. Só o chão. O direito de sair de um casamento ruim sem virar pária. O direito de trabalhar sem pedir bênção masculina. O direito de não ter filhos. O direito de estudar, escolher, herdar, denunciar, cansar, ir embora, dizer não. Coisas básicas, quase constrangedoras de tão básicas. E mesmo assim houve homem reagindo como se lhe tivessem amputado um império.
Porque, no fundo, tinham amputado mesmo. Não o império real – esse já era bastante medíocre – mas a fantasia dele.
Antes, bastava existir com salário e mau humor que a sociedade lhe entregava uma mulher de bandeja, treinada desde pequena para chamar servidão de amor. Hoje, infelizmente para certos infelizes, a mulher olha, calcula e às vezes decide que viver sozinha é menos exaustivo do que adotar um adulto com opiniões (imbecis). Isso produziu uma crise grave no mercado da mediocridade masculina.
Clarice quase sentiu pena. Quase…
A nova safra de meninos ressentidos, criada a whey protein, insegurança e fórum de internet, jura que descobriu uma conspiração. Chamam de red pill, como se misoginia com branding virasse filosofia. Reúnem-se virtualmente para repetir que mulher é interesseira, manipuladora, fútil, perigosa, decadente e – mistério dos mistérios – ao mesmo tempo inferior. Clarice sempre admirou esse talento masculino para temer aquilo que insiste em chamar de menor. Ninguém passa horas produzindo conteúdo contra pombos porque, no fundo, sabe que pombos não vão tomar seu lugar no mundo.
Mas mulher, ah, mulher assusta.
Assusta quando ganha dinheiro.
Assusta quando não sorri.
Assusta quando envelhece sem pedir desculpas.
Assusta quando não aceita ser escolhida como se fosse fruta.
Assusta quando denuncia.
Assusta quando prefere a própria paz à validação de um homem qualquer com podcast e boné.
E o susto, nos homens que nunca foram ensinados a lidar com frustração, vira rancor. Depois vira piada. Depois vira comentário. Depois vira ameaça. Depois vira tapa. Depois vira morte. E no meio do caminho ainda tem gente pedindo calma, contexto, ponderação…
Porque feminicídio, no fim, é isso: o último degrau de uma escada que começou lá embaixo, naquela gracinha aceita, naquela desumanização repetida, naquela ideia antiga de que mulher é posse, serviço, cenário ou prêmio. Nunca gente inteira. Gente inteira incomoda demais quem foi educado para ser centro.
Clarice, que já tinha esperança nas gerações mais novas, hoje tratava esperança como porcelana lascada: ainda servia para alguma coisa, mas exigia cuidado e não convinha comprar o aparelho completo. Ela achou que os meninos viriam melhores. Alguns vieram, é verdade. Mas outros vieram com saudade de um passado que nunca viveram – e que, se vivessem, provavelmente não suportariam, porque mal sabem fritar um ovo sem transformar a cozinha em zona de desastre.
No fundo, essa nostalgia masculina de tempos “mais simples” queria dizer apenas isto: tempos em que as mulheres tinham menos saída.
Clarice terminou o café já frio, porque indignação exige sacrifícios domésticos. Olhou para o bastidor, escolheu uma linha escura e começou a bordar com aquela serenidade que só nasce quando a pessoa já ultrapassou o limite da paciência e entrou no campo da lucidez ofensiva.
Ponto por ponto, a frase apareceu no tecido:
“Saudade do controle não é amor.”
E Clarice pensou que talvez o mundo nunca deixasse de odiar mulheres completamente. Mas pelo menos, agora, muitas delas já tinham aprendido a reconhecer o ódio quando ele chega fantasiado de conselho, romance, tradição ou preocupação. O patriarcado continua berrando, claro. Mas, pela primeira vez em muitos séculos, há mulheres suficientes respondendo:
– Vai berrar sozinho!
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