Clarice acordou desolada. Não era ressaca, não era boleto, não era nem o sumiço misterioso de uma meia na máquina de lavar — era pior… Era manchete.

“Ninguém vai chorar pelo Irã.”

Ela leu uma vez. Depois releu, achando que talvez tivesse trocado as sílabas. Quem sabe era “ninguém vai chorar no Irã”, erro de preposição sempre acontece. Mas não. Era aquilo mesmo. Seco, limpo, econômico. Uma frase tão enxuta que dava para estampar em camiseta minimalista e vender como conceito.

Clarice ficou olhando para o teto como quem procura ali algum vestígio de humanidade evaporada. “Ninguém”, dizia o jornalzinho. Palavra ousada, essa. “Ninguém” é sempre pronunciada por alguém — normalmente por quem se acha autorizado a falar em nome do planeta.

A crônica poderia terminar aqui, mas infelizmente o mundo insiste em continuar.

Porque não era só uma manchete. Era uma escola de meninas bombardeada.
Meninas.
Escola.
Bombardeada.
Três palavras que deveriam provocar pelo menos um soluço civilizatório. Mas não. O que provocaram foi silêncio. E, no silêncio, aquele coro sussurrado: “Ah, mas veja bem…”

Clarice conhece o “veja bem”. O “veja bem” é o primo educado do “não me importo”. Ele vem acompanhado de gráficos, análises geopolíticas e um tom professoral. Explica que existem contextos, tensões históricas, alianças estratégicas. Tudo muito sofisticado. Só não explica por que menina morta deixa de ser menina quando nasce do lado “errado” do mapa.

Talvez seja isso. Talvez a humanidade tenha criado um GPS moral. Dependendo da latitude, o valor da vida oscila. Em alguns lugares, cada suspiro vira breaking news. Em outros, centenas de corpos são nota de rodapé. É matemática emocional: soma-se indignação seletiva, divide-se por interesses diplomáticos, multiplica-se por silêncio conveniente.

Clarice imagina a reunião editorial do tal jornal. Alguém sugere: “Vamos humanizar a história?” Outro responde: “Melhor não. Humanizar complica. Se a gente disser que são meninas com cadernos, tranças e provas de matemática, vai ter gente se identificando.” E identificação é perigosa. Ela exige empatia. E empatia atrapalha narrativas.

Curioso como funciona o mecanismo… quando convém, o discurso é universal: direitos humanos, democracia, liberdade. Tudo muito amplo, muito luminoso. Mas quando a bomba cai num pátio escolar cheio de adolescentes, a universalidade tira férias. Aí surgem os asteriscos. As notas explicativas. Os “poréns”.

Clarice não é especialista em política internacional. Ela mal consegue organizar as próprias plantas. Mas sabe reconhecer desumanização quando vê. E desumanização começa assim: primeiro você questiona se aquela vida é tão vida assim. Depois transforma vítimas em estatística. Por fim, conclui que “ninguém vai chorar”.

É impressionante como o mundo consegue se mobilizar comovidamente por um cachorro abandonado — e que bom que se mobilize, Clarice ama cachorros — mas tropeça quando precisa se comover por meninas estrangeiras assassinadas. Talvez seja o filtro. O cachorro cabe no Instagram. A menina ferida exige contexto, exige responsabilidade, exige olhar direto para quem aperta os botões e financia os arsenais.

E aí o assunto fica delicado.

Porque, claro, bombas não caem sozinhas. Elas têm origem, têm rota, têm patrocínio. Há países que operam com a convicção de que sua segurança é sempre prioridade absoluta, mesmo quando atravessa o quintal alheio. E há outros que garantem apoio incondicional, porque alianças valem mais que uniformes escolares chamuscados.

Mas dizer isso em voz alta é considerado deselegante. É melhor manter o debate em nível abstrato. Falar de “conflitos”, como se fossem tempestades naturais. Como se ninguém decidisse, deliberadamente, onde e quando a chuva de fogo começa.

Clarice pensa na ironia: o mesmo mundo que discursa sobre a importância da educação feminina se cala quando uma escola feminina vira alvo. A mesma comunidade internacional que celebra meninas com livros fecha os olhos quando livros são substituídos por escombros.

E então vem a frase: “ninguém vai chorar”.

Talvez o jornal esteja certo, pensa ela com aquele humor ácido que lhe serve de armadura. Talvez ninguém chore mesmo. Talvez a comoção esteja reservada para tragédias que confirmem nossas narrativas preferidas. Talvez a empatia tenha se tornado artigo de luxo, distribuído conforme conveniência geopolítica.

Mas Clarice chora.

Chora de raiva, principalmente. Raiva da indiferença (des)elegante, da análise fria que esquece o calor do sangue, da retórica que escolhe quais mortes merecem luto público e quais merecem silêncio constrangedor.

Ela não está defendendo governos, bandeiras ou slogans. Está defendendo meninas que, até ontem, estavam preocupadas com provas, amizades e sonhos miúdos. Meninas que agora viraram argumento. E argumento é sempre mais fácil de descartar do que gente.

No fundo, o que dói não é só a bomba. É o eco. É o coro confortável dizendo que certas vidas já nascem fora da categoria “choráveis”. É a facilidade com que se aceita que algumas tragédias sejam inevitáveis, quase merecidas…

Clarice fecha o jornal com o mesmo cuidado com que se fecha um livro mal escrito. Não porque a história terminou, mas porque a paciência acabou.

Se “ninguém vai chorar”, ela decide ser esse ninguém.

E borda… porque, no fim das contas, talvez o maior escândalo não seja a explosão — mas a indiferença com que se aprende a conviver.