Clarice aprendeu cedo que todo bairro possui um personagem cuja principal contribuição para a comunidade é fornecer histórias que ninguém acreditaria se não houvesse testemunhas. No São Pedro (de Cima), bairro de Belo Horizonte onde ela passou a adolescência, esse personagem era Ronaldinho. Um pouco mais velho que a turma da rua, ele desfrutava daquela autoridade automática concedida aos rapazes que já tinham barba, podiam dirigir e cometiam erros com uma confiança que os mais novos ainda não haviam desenvolvido. Ronaldinho, no entanto, não usava sua experiência para orientar ninguém. Usava principalmente para beber.

Ele bebia com uma seriedade que causava inveja em qualquer servidor público. Nunca faltava, nunca se atrasava e jamais encerrava o expediente antes do previsto. Não bebia para comemorar, esquecer um amor ou criar coragem. Bebia porque estava acordado. Se tivesse aplicado aos estudos metade da dedicação que aplicava à cachaça, provavelmente teria duas graduações, um cargo concursado e uma foto séria no corredor de alguma repartição. Como não aplicou, tinha apenas uma coleção de tombos, histórias improváveis e um fígado que, se pudesse pedir transferência de órgão, provavelmente já teria protocolado o requerimento.

Foi nessa atmosfera de maturidade coletiva que a turma decidiu organizar um acampamento de fim de semana. A ideia nasceu numa calçada, como nascem os grandes projetos adolescentes: ninguém sabia exatamente quem havia sugerido, ninguém possuía dinheiro suficiente e todos tinham certeza de que daria certo. Vieram o planejamento, a escolha do lugar, a distribuição dos jovens nos poucos carros disponíveis e a separação dos mantimentos. Havia barracas emprestadas, panelas sem tampa, arroz em quantidade incompatível com a fome do grupo e um número surpreendente de pessoas que prometeram levar fósforos, como se o fogo dependesse de uma votação democrática.

Clarice ajudou a organizar as compras e percebeu rapidamente que Ronaldinho possuía prioridades diferentes. Enquanto todos separavam comida, cobertores, lanternas e repelente, ele enchia a mochila com garrafas de cachaça. Muitas garrafas. Não era uma reserva para o fim de semana; era um estoque suficiente para transformar qualquer velório em carnaval. O requinte da operação era uma lata de pêssegos em calda. Ronaldinho chamava aquilo de drink. Clarice chamava de crime gastronômico.

– É para dar um gostinho – explicou.

Clarice decidiu não discutir. Havia batalhas intelectuais que simplesmente não compensavam.

A viagem começou com todos amontoados nos carros, carregando mochilas no colo, panelas entre os pés e uma confiança desproporcional na habilidade dos motoristas, alguns recém-habilitados e outros apenas otimistas. Depois veio a trilha pela mata, longa o bastante para transformar a animação inicial em silêncio e fazer cada mochila parecer recheada com pedras. De tempos em tempos, alguém anunciava que estavam quase chegando. Clarice descobriu naquele dia que “quase chegando” era uma unidade de medida bastante flexível, capaz de significar desde a próxima curva até mais duas horas de subida.

Ronaldinho caminhava bebendo. Não escondia a garrafa porque, para ele, a cachaça não era um vício; era praticamente um cantil. A cada parada, abria a mochila para conferir seu patrimônio, enquanto Clarice observava a lata de pêssegos ser tratada com o cuidado normalmente reservado a medicamentos de uso contínuo. Quando o grupo finalmente chegou à cachoeira, todos procuraram terrenos planos, secos e afastados do rio para montar as barracas. Ronaldinho fez exatamente o contrário.

Escolheu um ponto junto à margem, tão próximo da água como quem confundira acampamento com lançamento de embarcação. Avisaram que o lugar não era seguro. Disseram que o rio poderia subir se chovesse, que aquela faixa de terra era baixa e que existiam diversos espaços melhores um pouco mais acima. Clarice ainda apontou para uma área protegida pelas árvores e explicou, com uma paciência que hoje considera excessiva, que dormir ouvindo água era agradável apenas enquanto a água permanecia fora da barraca.

Ronaldinho ouviu tudo com a tranquilidade de quem já havia substituído boa parte do sangue por aguardente.

– Relaxa. Quero dormir com o barulhinho do rio.

Clarice sabia que “relaxa” era uma palavra estatisticamente associada a boletins de ocorrência…

Ainda assim, como todos eram adolescentes e acreditavam firmemente no direito individual ao desastre, deixaram Ronaldinho montar sua barraca onde desejava. Ele fincou as estacas, guardou as roupas, a panela, os chinelos e as garrafas, acomodando a lata de pêssegos como quem deposita uma joia num cofre. Depois que o acampamento ficou pronto, alguém sugeriu que o grupo subisse o rio para procurar uma queda d’água maior. Clarice aceitou porque, naquela idade, caminhar por pedras molhadas em lugar desconhecido parecia aventura, não negligência.

Seguiram pelo curso do rio, rindo, conversando e ajudando uns aos outros nos trechos mais difíceis. Ronaldinho vinha atrás, já devidamente calibrado, com aquele andar cuidadoso de quem acredita estar disfarçando a própria embriaguez, embora o corpo inteiro apresente testemunho contrário. O tempo estava aberto quando saíram, mas, no meio do caminho, o céu mudou de aparência com uma rapidez assustadora. A tarde escureceu, o vento passou a sacudir as copas das árvores e uma tempestade desabou sobre a mata sem oferecer sequer a delicadeza de uma garoa preparatória.

Era chuva que fazia Noé procurar estacionamento.

Clarice percebeu o rio aumentar diante de seus olhos. A água, que antes passava tranquila entre as pedras, ganhou força, volume e uma velocidade capaz de carregar uma capivara. Em poucos minutos, o barulhinho que Ronaldinho pretendia usar como música de ninar transformou-se num rugido. Todos se entreolharam, e bastou alguém mencionar o acampamento para que a imagem da barraca montada na margem surgisse na cabeça de Clarice com a clareza de uma sentença anunciada.

O grupo iniciou a volta às pressas. Os primeiros praticamente corriam, enquanto os demais escorregavam pela trilha já tomada pela lama. Clarice tentava acompanhar o ritmo e, ao mesmo tempo, olhava para trás, preocupada com Ronaldinho, que seguia no fim da fila numa disputa particular contra o terreno, a chuva e as leis da física. Quanto mais os jovens se aproximavam do acampamento, mais alto ficava o rio. Clarice já não temia apenas encontrar roupas molhadas; temia que não encontrassem nada.

Quando chegaram, as barracas instaladas nos pontos altos ainda estavam no lugar. Encharcadas, tortas e pouco confortáveis, mas no lugar. A barraca de Ronaldinho, contudo, havia abandonado sua condição terrestre. Estava parcialmente dentro do rio, sacudida pela correnteza e presa por uma única estaca que resistia bravamente.

Clarice contemplou aquela estaca solitária com genuína admiração. Era, naquele momento, o integrante mais responsável de todo o acampamento. Se pudesse votar, Clarice teria colocado aquela estaca como líder da excursão.

Ronaldinho apareceu alguns instantes depois e, ao avistar a cena, recuperou uma expressão de sobriedade que ninguém notava há horas. Gritou pela barraca e tentou se aproximar da margem. Clarice e os outros começaram a impedi-lo, avisando que a correnteza estava muito forte. Ele, porém, olhava para a lona balançando como um capitão que vê seu navio afundar. Clarice percebeu que Ronaldinho não acompanhava o destino das roupas, da panela ou dos chinelos. Os olhos dele seguiam exatamente o compartimento onde estavam as garrafas de cachaça e a inseparável lata de pêssegos.

Antes que ele chegasse perto, a última estaca finalmente desistiu. Depois de lutar sozinha contra o rio, soltou-se da terra, e a barraca girou na correnteza como se fizesse uma pequena reverência de despedida. Foi embora levando roupas, panela, chinelos, cuecas, garrafas de cachaça e a gloriosa lata de pêssegos em calda.

Ronaldinho permaneceu imóvel. Clarice nunca havia visto alguém acompanhar um objeto flutuante com tanta dor. Durante alguns segundos, ninguém riu. Não por respeito à tragédia, mas porque todos tentavam calcular quantos litros de álcool acabavam de ser incorporados ao ecossistema. Clarice imaginou peixes desorientados, sapos cantando fora do tom e uma capivara acordando no dia seguinte sem lembrar como havia chegado à outra margem.

O acampamento terminou ali. Voltaram molhados, cansados, famintos e um pouco mais conscientes de que rios sobem, tempestades chegam e certos conselhos possuem utilidade prática. Para Ronaldinho, aquele foi o primeiro e último acampamento da vida. Clarice gostaria de dizer que ele aprendeu alguma coisa sobre natureza, prudência ou os perigos de instalar uma barraca junto ao rio. Mas histórias verdadeiras raramente têm finais tão educativos.

Na primeira venda de beira de estrada, Ronaldinho comprou outra garrafa… e um pacote de pipoca Guri.

Algumas pessoas aprendem com os próprios erros. Ronaldinho preferia apenas repor o estoque.