Clarice já desconfiava, havia anos, que a humanidade tinha perdido o eixo. Não aquele eixo dramático de fim de civilização, com meteoros, pragas ou zumbis chegando em fila indiana. Não. Era pior. Era um fim de mundo com ring light.
Tudo agora precisava ser performático.
A tristeza não se bastava mais sendo tristeza. Tinha que vir com legenda bem escrita, foto em preto e branco, uma xícara abandonada ao lado da janela e, se possível, uma música melancólica ao fundo. A alegria também não podia simplesmente acontecer. Precisava ser registrada, editada, filtrada, publicada e depois confirmada por terceiros através de curtidas, comentários e emojis amarelos com lágrimas nos olhos.
Clarice achava aquilo uma humilhação coletiva.
Morando no alto de uma montanha, longe da cidade, dos vizinhos e das conversas que começavam com “você viu no Instagram?”, ela tinha a vantagem de observar o delírio humano com certa distância geográfica. A desvantagem era que ainda existia internet…… e ela assinava o pacote de tantos MEGA como uma praga tecnológica com sinal razoável.
Naquela manhã, ela tomava café passado no coador de pano, olhando para as nuvens agarradas nas árvores como senhoras indecisas na porta da igreja. O silêncio era perfeito. Tão perfeito que dava até medo de alguém inventar uma startup para monetizá-lo.
– Silêncio premium (murmurou Clarice): Plano básico com passarinhos. Plano avançado com autoconhecimento.
Abriu o celular… erro primário. Em menos de cinco minutos, já estava irritada. Havia uma mulher ensinando como “romantizar a rotina” enquanto lavava louça com pulseiras douradas, sorriso de comercial de margarina e uma iluminação que jamais existiu em cozinha real. Havia um homem explicando como acordar às cinco da manhã transformou sua vida, sua pele, seu faturamento e, aparentemente, sua capacidade de ser insuportável. Havia uma jovem chorando diante da câmera, mas chorando num enquadramento tão bem calculado que Clarice quase respeitou mais a produção do que a dor.
– Antigamente a pessoa sofria em paz – disse ela para o gato, que dormia com a dignidade de quem nunca precisou construir marca pessoal. – Hoje até o colapso emocional precisa de identidade visual.
O gato, que se chamava Napoleão por pura ironia, abriu um olho e fechou de novo. Era a opinião mais sensata que Clarice receberia naquele dia.
O problema, pensava ela, não era as pessoas mostrarem a vida. Mostrar, todo mundo sempre mostrou. A vizinha antiga mostrava o bolo, a tia mostrava o enxoval, o padre mostrava virtude, o político mostrava dente. A diferença é que agora ninguém mostrava nada sem transformar aquilo numa apresentação de si mesmo.
Clarice sentia uma saudade suspeita de quando o fracasso era apenas fracasso. Feio, suado, sem trilha sonora. A pessoa quebrava a cara, ficava uns dias quieta, comia pão com manteiga, reclamava do governo e seguia vivendo. Agora não… Agora a pessoa precisava “ressignificar”. E, depois de ressignificar, construir uma narrativa e vender um e-book.
Ela largou o celular na mesa como quem larga um bicho venenoso.
Lá fora, o vento balançava as folhas com uma displicência que Clarice admirava. A natureza nunca precisou convencer ninguém. A árvore não dizia: “Hoje escolhi florescer apesar dos traumas.” A montanha não postava: “Gratidão por mais um dia sustentando esse vale.” O sabiá não abria live para explicar sua jornada de cura através do canto.
Eles simplesmente existiam. Que ousadia!
Clarice, que estava chegando nos cinquenta e carregava no corpo uma coleção de pequenas rebeliões – lombar reclamando, vista exigindo negociação, paciência aposentada – achava que uma das maiores tragédias contemporâneas era essa incapacidade de existir sem plateia. Tudo precisava colar. Tudo precisava engajar. Tudo precisava virar narrativa.
Até a simplicidade virou pose… Havia gente se esforçando muito para parecer simples. Comprava roupa cara com cara de roupa velha, fazia café em utensílios que exigiam manual de instrução e morava em apartamentos “minimalistas” onde uma cadeira custava o equivalente a três meses de mercado de uma família normal. Depois chamavam aquilo de vida essencial.
Clarice ria.
– Essencial é arroz, feijão e um chinelo que não arrebente no meio do caminho!
Mas ninguém queria o essencial. Queriam a estética do essencial. Queriam parecer profundos, leves, conscientes, interessantes, vulneráveis, produtivos, bem resolvidos e, acima de tudo, vendáveis. A humanidade tinha se transformado num catálogo ambulante de si mesma.
O mais cansativo era que até a bondade precisava ser anunciada. Ninguém ajudava ninguém sem uma câmera por perto. A caridade vinha com legenda. A empatia vinha com hashtag. A indignação vinha com roteiro. Clarice tinha uma teoria: se um dia proibissem filmar boas ações, metade da humanidade perderia subitamente o interesse pelo próximo.
Não que ela fosse contra boas ações. Pelo contrário. Ela só desconfiava de bondade com iluminação profissional.
Mas, quanto mais Clarice amadurecia, mais se continha nas críticas. A maturidade, às vezes, era apenas preguiça de discutir. Ela mesma, se fosse explicar sua vida nesses termos modernos, diria que estava numa fase de recolhimento estratégico em ambiente natural de baixa interferência humana.
A solidão de Clarice não era triste. Era bem mobiliada. Tinha café, linha, agulha, livros, vento, uma horta meio teimosa e Napoleão, que contribuía pouco financeiramente, mas mantinha certa presença aristocrática no sofá.
O que a incomodava não era o mundo ser barulhento. O mundo sempre foi. O que a irritava era o mundo ter começado a exigir que todo mundo fosse interessante o tempo inteiro.
Ninguém podia ser opaco. Ninguém podia ser comum. Ninguém podia ter um dia besta, uma ideia medíocre, uma roupa sem conceito, uma opinião sem potência. Tudo tinha que ser intenso, autêntico, transformador, disruptivo. Até uma caminhada precisava ser “experiência”. Até ficar em casa precisava ser “ritual”…
Clarice sentia falta do direito de ser apenas uma pessoa.
Uma pessoa que acorda amassada, esquece o nome de uma planta, compra tomate caro e fica indignada, perde a paciência com tampa de pote, fala sozinha, erra a mão no sal, cochila sem propósito e não aprende absolutamente nada com isso.
Porque agora tudo tinha que ensinar alguma coisa.
Se alguém tropeçava, vinha a legenda: “O tombo me mostrou que o chão também acolhe.” Clarice preferia a versão antiga: “Caí porque sou desastrada.”
Muito mais honesta. Muito menos cafona.
No fim da tarde, ela voltou a pegar o celular. Outro erro, mas Clarice não era perfeita; apenas crítica. Viu um vídeo dizendo que, para ser valorizada, a pessoa precisava “ocupar espaço com presença magnética”.
Ela olhou ao redor. A cozinha pequena, a caneca lascada, o gato atravessado na cadeira, o mato crescendo onde não devia.
– Napoleão – disse ela –, você acha que eu tenho presença magnética?
O gato bocejou.
– Concordo! Tenho presença cansada. É diferente, mas também ocupa espaço.
E riu sozinha. Riu porque ainda podia rir sem gravar. Riu porque ninguém estava vendo. Riu porque aquela pequena liberdade, hoje em dia, parecia quase clandestina.
Depois desligou o celular, como quem fecha a porta na cara de uma visita inconveniente, e foi regar as plantas. Sem propósito maior. Sem legenda. Sem reflexão profunda. Apenas água caindo na terra.
E Clarice pensou, com uma paz meio debochada, que talvez o verdadeiro luxo contemporâneo fosse esse: fazer alguma coisa sem transformar em conteúdo.
Não performar.
Não convencer.
Não influenciar.
Apenas viver.
Que escândalo.
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