Clarice sempre achou gatos criaturas esteticamente irrepreensíveis. Elegantes, silenciosos, minimalistas — quase como esculturas vivas, dessas que a gente admira de longe e agradece não precisar limpar o pó. O problema nunca foi a beleza felina. O problema sempre foi a sobrevivência humana. Clarice é alérgica a gatos de um jeito pouco poético: não espirra delicadamente como nas propagandas de antialérgicos; ela incha, coça e se transforma numa instalação artística chamada Mulher em Colapso Respiratório.

Ainda assim, há poucos dias, Clarice notou uma gata rondando sua casa. Magra, miando muito, aparecia e desaparecia como uma metáfora barata sobre abandono. Ia, voltava, tornava a miar. Clarice observou aquilo durante dias com aquela culpa humanitária que só aparece quando a gente sabe que vai fazer algo que vai dar errado.

Então abriu uma lata de atum.

E foi aí que o inferno começou.

A gata enlouqueceu. Não apenas gostou — enlouqueceu. Transformou a casa de Clarice em ponto fixo do roteiro gastronômico. Passou a aparecer diariamente, com uma pontualidade que nenhum entregador de encomenda jamais demonstrou. Instalou-se na porta como se tivesse recebido escritura pública do terreno.

Clarice, que sempre manteve a porta aberta — um gesto civilizatório de confiança na humanidade — teve que fechá-la. Senão a gata entrava. E, entrando, Clarice morreria. Não metaforicamente. Morreria mesmo. E Clarice acha os gatos lindos, mas sempre teve a firme convicção de que continuar viva é um valor que merece ser preservado.

O curioso é que a gata desenvolveu um comportamento afetivo seletivamente hostil. Se Clarice saía porta afora, lá vinha o animal se esfregar nas pernas com um entusiasmo quase romântico. Mas bastava passar a mão na cabeça que o amor virava ódio em menos de um segundo. Mordida. Arranhão. Acolhimento seguido de agressão — Clarice achou aquilo muito moderno. Relações afetivas contemporâneas resumidas num único organismo peludo.

Como boa cidadã digital, Clarice colocou a foto da gata no grupo de WhatsApp dos vizinhos. O dono apareceu. Um milagre urbano: o tutor existia. A gata tinha CPF emocional e residência declarada.

Mas a gata continuou vindo.

Num desses dias, quando a criatura surgiu novamente miando como se estivesse estrelando um drama italiano, Clarice avisou o dono.

— Vou buscá-la.

Três horas depois, Clarice seguia presa em casa.

Não presa — confinada preventivamente, como gostam de dizer as autoridades. A gata ocupava o perímetro externo, girando pela porta como um pequeno guarda territorial. Clarice imaginou que era assim que se sentem os personagens de filmes de sequestro, só que sem trilha sonora dramática.

Durante essas visitas indesejadas, Clarice observou melhor o comportamento da gata. Bipolaridade afetiva, magreza extrema, fome insaciável, agressividade intermitente. Clarice gosta de gatos — a distância — e resolveu pesquisar. O Google ofereceu um catálogo respeitável de possibilidades médicas. Desde verminoses até distúrbios hormonais, passando por infecções e alterações comportamentais. Clarice organizou as informações e compartilhou no grupo. Serviço comunitário gratuito. SUS intelectual de bairro.

Dias depois, a gata brigou com o cachorro da vizinha. A vizinha apartou a briga. Resultado: gato ferido, cachorro ferido, vizinha ferida. Uma espécie de pacto sangrento entre espécies domésticas.

Finalmente o dono apareceu e levou a gata.

Clarice imaginou que ali viria o momento civilizado: desculpas, talvez um reconhecimento do transtorno causado, quem sabe até um tímido “obrigado”.

Mas não.

O dono decidiu explicar à vizinha que estava bravo com a intromissão de Clarice. Afinal, a gata dele era muito bem cuidada.

Clarice achou foi graça.

Ela que ficou refém da criatura. Ela que transformou a própria casa em cativeiro voluntário. Ela que passou dias coçando como se estivesse coberta de formigas invisíveis por causa da alergia. Ela que já teve um tênis novinho destruído pelo cachorro do mesmo dono — uma obra de arte contemporânea intitulada Desconstrução do Couro Sintético.

Não podia ficar incomodada, não.

Logo Clarice.

De todos os vizinhos, Clarice é a única que não tem pet. Não por falta de amor. Mas por excesso de fauna. O quintal de Clarice abriga passarinhos, lagartos, insetos, sapos e qualquer criatura que respeite a regra básica de convivência: não entrar na casa dela e não exigir atum em regime diário.

Clarice prefere biodiversidade espontânea a mamíferos proprietários.

Naquele dia, Clarice pensou seriamente em bordar uma bandeira e hastear na porteira uma frase de Quintana:

“Eles são feios, burros e não morrem jamais.”

Mas talvez seja desaconselhável ser honesta demais em vizinhanças organizadas por grupos de WhatsApp.

Especialmente quando o inimigo sabe onde você mora.

E gosta de atum.