Clarice descobriu que envelheceu quando começou a ler notícia ruim como quem lê previsão do tempo: sem susto, só com aquela cara de “ah, tá… mais uma tempestade acompanhada de furacão”. A manchete do dia tinha cheiro de mofo com perfume caro: sociedade patriarcal considera aumentar impostos para mulheres que não querem ter filhos. Clarice riu. Riu daquele jeito que não é exatamente riso: é um sopro de indignação com glitter de deboche.
— Que fofos — ela disse, sozinha, para a xícara de madeira, cheia de café que já conhecia suas crises existenciais.
— Agora a maternidade vai ser “incentivada” na base do boleto.
Porque o patriarcado, quando quer, vira coach. Não de carreira, claro… de útero. Sempre tem um plano de metas. Sempre tem um “empurrãozinho”. Sempre tem um “você vai agradecer depois”. E, quando ninguém compra o discurso, ele tenta vender com juros. Clarice imaginou a reunião: um bando de homens com gravata discutindo como aumentar a taxa de natalidade sem precisar, em nenhum momento, mudar a parte em que a mulher é quem se lasca todinha.
Clarice, por sua vez, já estava cansada desse pitch desde os anos 90. Sim, os anos 90. Quando ninguém falava em “fim do mundo”, colapso climático, escassez de recursos, algoritmo decidindo o humor do planeta e bilionário querendo colonizar Marte e construindo bunker de centenas de milhões de dólares. Clarice não precisava de apocalipse para ter bom senso. Ela já dizia, com a serenidade de quem previu o óbvio:
— Não tô a fim de me reproduzir.
Naquela época, a resposta vinha pronta, como se fosse carimbo: “Ah, mas você vai mudar de ideia”… Clarice ouvia isso como quem ouve alguém falando “você vai aprender a gostar de costela”. Não, obrigada, não quero nem experimentar! E não era porque ela odiava crianças. Clarice sempre gostou de crianças — gostava de conversar com elas porque elas ainda não tinham aprendido a mentir socialmente com sorriso. Criança pergunta o que ninguém pergunta, aponta o que ninguém aponta e ri de coisas que adulto chama de “inadequadas”. Clarice era fã.
O problema não era a criança. Era o mundo. O mundo já parecia uma sala pequena com gente demais falando ao mesmo tempo, todo mundo querendo atenção, todo mundo querendo espaço, todo mundo querendo razão. E a sociedade ainda insistia em empurrar mais gente para dentro, como se o planeta fosse um elevador mágico que nunca chega no limite. Clarice tinha uma frase que repetia desde sempre, meio profecia, meio preguiça lúcida:
— Não cabe mais gente aqui…
Mas, acima de tudo, Clarice sabia do detalhe que ninguém menciona na propaganda oficial da maternidade: quando uma mulher tem um filho, é ela que paga a conta inteira… e ainda fica devendo.
Ninguém dá tutorial com letras grandes explicando: você pode perder seu corpo como conhece, seu sono, sua carreira, seu tempo, sua privacidade, sua sanidade e, de brinde, ganhar opinião alheia ilimitada. O pai? O pai ganha parabéns.
E Clarice tinha uma raiva particular do modo como a paternidade é tratada como hobby.
— “Pai que ajuda”. Oi? — Ajudou a fazer, mas depois não é ajuda, não. É obrigação mesmo.
“Ajudar” é quando você segura a porta do elevador. Quando você troca a fralda do seu próprio filho, você não está “ajudando”. Você está fazendo o mínimo para não ser um personagem secundário na vida de alguém que você colocou no mundo. Mas a sociedade aplaude. Aplaude como se o homem tivesse descoberto a cura do tédio só por ter levado a criança ao pediatra.
Clarice conhecia essas cenas. O pai chega no parquinho e alguém diz: “Nossa, que pai presente!” Presente como se fosse visita. Presente como se morasse em outro país. Presente como se a criança fosse um trabalho voluntário. E a mãe ali, virando sistema operacional de uma casa inteira, gerenciando calendário, alimentação, escola, vacina, roupa, febre, medo, birra, culpa e — claro — o próprio sorriso social para provar que está “dando conta”.
E agora querem “incentivar” com imposto! Clarice achou genial. O patriarcado sempre foi um artista circense: pega a própria falha estrutural e joga no colo da vítima como dever cívico.
— Vamos fazer assim — ela imaginou um ministro dizendo, com a calma de quem nunca lavou uma mamadeira —: se elas não quiserem ter filhos, elas pagam mais. Porque… porque sim. Porque a sociedade precisa.
“Sociedade”, nesse caso, é uma palavra muito conveniente. Sociedade é sempre esse ser abstrato que nunca aparece para lavar a louça, mas sempre aparece para dar palpite.
Clarice pensou em sugerir um imposto diferente: imposto para homem que some. Imposto para homem que chama obrigação de “ajuda”. Imposto para homem que “quer muito ser pai” desde que alguém faça o trabalho pesado, emocional e invisível. Imposto para quem acha que mãe é um serviço público gratuito, 24 horas, com sorriso obrigatório e sem direito a recesso.
Mas ela sabia. Sabia que não era sobre lógica. Era sobre controle. Quando a mulher diz “não”, o sistema escuta como afronta. Quando a mulher escolhe silêncio, o sistema responde com barulho. Quando a mulher escolhe a própria vida, o sistema tenta rebatizar isso de egoísmo.
Clarice, que sempre teve alergia a chantagem moral, levantou a sobrancelha como quem assiste a um espetáculo repetido:
— Querem me cobrar imposto por não parir? Façam o favor de me dar, pelo menos, abatimento por lucidez.
No fim do dia, ela voltou ao seu canto preferido: a mesa com linhas, agulhas e tecido. Ali ninguém exigia explicação. Ali não tinha “vai mudar de ideia”. Ali não tinha “relógio biológico” fazendo tic-tac como ameaça. Só havia o som pequeno do bordado e uma solidão tão amada — aquela solidão limpa, inteira, impossível para quem se reproduziu nesta vida e nunca mais conseguiu ouvir o próprio pensamento sem interrupção.
Clarice respirou, escolheu uma linha e começou a bordar, letra por letra, como quem assina uma verdade sem precisar gritar. Na almofada, a frase nasceu com o humor que a salvava do mundo:
“filho é bom, mas dura…….”
Deixe um comentário