Clarice não viaja. Clarice acontece. E, como todo acontecimento bem mal-educado, ela chega sem avisar, sem roteiro, sem seguro-viagem e com um otimismo suspeito. Planejar pressupõe acreditar que o mundo vai colaborar, e Clarice deixou de acreditar nisso aos 15 anos, quando percebeu que a vida tem a delicadeza de uma betoneira desgovernada. Desde então, ela aceita o fluxo. A tal da roda viva. Aquela que carrega o destino pra lá – geralmente sem cinto de segurança, sem GPS e sem aviso prévio.

Foi assim que Clarice foi parar na Turquia. Oficialmente, ia estudar. Extraoficialmente, ia ver no que dava. Ganhou bolsa, escola, endereço e uma promessa genérica de “experiência cultural”. Só não contava que ganhou de brinde um curso intensivo de convivência com jovens sufis místicos que acreditavam em algumas coisas… como dizer… divertidas. Não vou chamar de absurdas porque, no mundo, tudo é relativo: tem gente que acredita em signo, tem gente que acredita em coach, tem gente que questiona tudo (menos o fato de estar completamente equivocada).

Foram onze meses convivendo com esse povo iluminado – e com Clarice, que não tem absolutamente nada de iluminada, mas tem opiniões. Ela discutiu com todos: colegas, professores, coordenadores e, claro, o porteiro, porque nenhuma trajetória é completa sem um embate filosófico com quem controla a porta. Ao final desse tempo, Clarice conhecia Istambul melhor que muito guia turístico e estava cansada de fingir que entendia conversas sobre vibrações sutis antes do almoço.

Foi quando decidiu estudar árabe em Damasco. Decidiu assim, num estalo. Sem passagem de volta, sem roteiro, sem hospedagem confirmada. Avião? Não! Avião é caro e não gera boas histórias. Clarice foi por terra, porque o drama precisa de estrada, poeira e ônibus suspeito. A viagem durou duas semanas e foi um espetáculo de pequenas tragédias cômicas, mas isso fica para outra crônica. O foco aqui é outro: como Clarice conseguiu ficar na Síria por quatro anos sem jamais se registrar como estudante.

Quatro anos. Sem matrícula. Sem carteirinha. Sem nada além de um passaporte e uma coragem que beirava a irresponsabilidade artística.

A estratégia era simples e absolutamente insana: a cada seis meses, Clarice saía de Damasco, atravessava a fronteira e ia até Beirute apenas para carimbar mais um visto de turismo. Voltava. Repetia. Como quem faz backup da consciência e segue cometendo os mesmos erros. Muita gente imagina isso como um sacrifício imenso. Na verdade, o verdadeiro sacrifício seria depender da burocracia. No mundo árabe, burocracia não é processo: é provação espiritual. Se você sai ileso, já ganhou.

Na primeira vez, Clarice teve ajuda. Um amigo libanês, desses que parecem ter sido treinados desde o nascimento para enfrentar filas e sobreviver… Ele pegou o passaporte dela e entrou no jawazaat, aquele postinho da fronteira cheio de guichês que mais parecia uma micareta do carnaval de Porto Seguro, só que sem praia, sem música e sem alegria. Apenas homens suarentos se esmagando num calor existencial e funcionários públicos bigodudos atrás dos balcões, tomando chá com a serenidade de quem tem todo o tempo do mundo – e sabe disso.

Umas duas horas depois o amigo voltou triunfante, despenteado, segurando o passaporte como se fosse um troféu olímpico. Carimbo novo. Seis meses de vida garantida. Clarice quase chorou de emoção, mas guardou as lágrimas para ocasiões mais estratégicas.

Na segunda renovação, ela foi sozinha. Porque Clarice confunde experiência prévia com imunidade. Entrou confiante no meio da multidão e, em segundos, estava prensada por ombros, cotovelos e decisões ruins. Não dava pra respirar. Não dava pra se mover. Não dava nem pra fingir calma. Clarice virou um corpo comprimido entre homens que pareciam atravessar fronteiras desde o Califado Omíada.

Foi aí que aconteceu o milagre.

Clarice chorou.

Não foi choro educado. Não foi lágrima discreta. Foi aquele choro convulsivo, com soluço, som e expressão facial de quem acabou de perder tudo – inclusive a dignidade. O tipo de choro que interrompe linhas do tempo e aciona protocolos invisíveis.

E, como num passe de mágica, abriu-se uma clareira. Os homens se afastaram. Surgiu uma cadeira. Ninguém sabe de onde. A cadeira foi passada de mão em mão, como uma oferenda sagrada, e colocada aos pés de Clarice. Sentaram Clarice. Pegaram seu passaporte. Deram água. Lenços. Um silêncio respeitoso se instaurou, como se todos tivessem decidido coletivamente: “vamos resolver isso logo”.

Cinco minutos depois – cinco – o passaporte voltou. Carimbado. Seco. Oficial. Seis meses garantidos.

Clarice entendeu ali que tinha descoberto uma ferramenta mais poderosa que o dinheiro. Mais eficiente que formulário. Mais rápida que argumento. Universalmente compreendida: o choro.

Dali em diante, a cada seis meses, Beirute. Carimbo. Damasco. E quando a situação apertava, quando o funcionário franzia a testa ou a fila parecia eterna, Clarice acessava seu recurso especial. Às vezes genuíno. Às vezes performático. Sempre eficaz.

Ela chorou em fronteiras, repartições, balcões e situações diversas. Sempre funcionou. Porque, naquele mundo, documento é importante, mas emoção é decisiva. O choro atravessa idiomas, hierarquias e regulamentos.

E assim Clarice ficou. Quatro anos. Estudando árabe, vivendo, errando, improvisando. Sem plano. Sem controle. Apenas seguindo a roda viva, com um passaporte carimbado e lágrimas prontas para uso emergencial.

No fim, Clarice não aprendeu só árabe. Aprendeu que, em certos lugares, sobreviver não exige organização – exige presença cênica. E, convenhamos, nisso ela sempre foi fluente.