Outro dia, enquanto tomava café frio na mesa da cozinha, o algoritmo de Clarice lhe passou mais uma rasteira indicando uma entrevista… Era dessas leituras que não passam incólumes: entram pelos olhos e descem direto para o estômago. Clarice não estava buscando raiva, mas ela veio. Não como explosão, e sim como aquela pressão antiga, conhecida, que se acumula quando uma mulher percebe que o mundo continua explicando a violência como se fosse um mal-entendido.

O entrevistado apareceu na revista como quem entra numa sala de espelhos: sério, compenetrado, convencido de que sua imagem multiplicada é, na verdade, profundidade. Disse que queria paz. Disse que queria diálogo. Disse que estava cansado da briga. E enquanto tentava nos explicar – a nós, mulheres, criaturas tão confusas – que talvez estivéssemos exagerando, aparava com cuidado as próprias palavras… como quem poda um bonsai, alheio ao fato de que, do lado de fora, mulheres estavam sendo arrancadas do chão pela raiz.

Chico Bosco – esse homem de fala macia, barba ilustrada e consciência auto analisada – decidiu explicar o machismo como quem explica um mal-entendido entre amigos. Uma pequena rusga. Um desencontro de afetos. Um exagero emocional feminino.

Ah, como é delicado o patriarcado quando passa pela boca de um homem sensível…

Os Chicos da vida se declaram não machistas com a mesma convicção de quem se declara “cidadão de bem”. É uma frase que não serve para nada, mas acalma muito quem a pronuncia. Funciona como um incenso moral: perfuma o ar sem limpar a sujeira.

O problema do machismo, para eles, parece ser o tom das mulheres. Não a violência, não os estupros, não os feminicídios, não o controle sobre os corpos, não o medo que entra em nós como uma herança genética. O problema é que falamos alto demais. Com raiva demais. Com dor demais. Exageradamente assertivas…

Talvez o problema do machismo fosse, afinal, uma questão de “pontos de vista”… é sempre com esse talvez que o patriarcado se perpetua.

A dor feminina sempre foi considerada inconveniente.

Os Chicos querem uma luta educada. Um feminismo com voz de comercial de margarina. Um protesto que não derrube móveis nem abale estruturas. Um incêndio que aqueça, mas não queime.

Eles nos pedem que baixemos as armas – esquecendo, com uma elegância quase artística, que nunca fomos nós que as empunhamos primeiro. Há algo de quase poético na capacidade que esses homens têm de transformar a violência alheia em desconforto próprio. É curioso como o conforto masculino sempre parece mais urgente que a sobrevivência feminina.

A mulher morre, mas o chico se sente atacado.
A mulher apanha, mas ele pede calma.
A mulher denuncia, mas ele pede compreensão.
A mulher morre, mas ele pede diálogo.
A mulher aponta a estrutura, e ele responde com seu umbigo.

Os chicos dizem que não são machistas, mas falam como se o machismo fosse uma opinião – e não uma engrenagem. Como se fosse algo que se escolhe, e não algo que se herda, se aprende, se incorpora, se reproduz no espelho todos os dias ao fazer a barba.

Porque o patriarcado não vive nos homens maus.
Ele vive nos homens normais.

E isso é o que mais dói admitir.

Os chicos são essas criaturas híbridas: metade discurso progressista, metade privilégio intacto. Eles citam feministas, mas nunca as escutam de verdade. Eles usam palavras bonitas, mas vivem numa casa construída com tijolos antigos. Eles criticam o machismo, desde que nunca precisem olhar para os próprios bolsos cheios disso.

Os Chicos falam de ressentimento feminino como se fosse uma falha de caráter, e não uma reação química à violência constante. Mulheres ressentidas são mulheres que não aceitaram mais ser trituradas em silêncio.

Mas o homem sensível se incomoda. E esse incômodo, no mundo em que vivemos, parece mais grave do que qualquer agressão sofrida por uma mulher.

Ele sente.
Ele sofre.
Ele se diz injustiçado.

Enquanto isso, seguimos enterrando nossas mortas.

Há algo quase cômico nesse teatro. Um homem cercado de microfones explicando para mulheres por que elas deveriam brigar menos. É como um lobo, com uma flor na boca, pedindo que as ovelhas relaxem.

— Eu não sou como os outros – diz ele.

Mas usufrui exatamente do que eles construíram.

O patriarcado não exige que você seja cruel… Só exige que você não abra mão dos privilégios.

Os Chicos querem ser aliados sem pagar o preço da aliança. Querem ser parte da mudança sem sair do lugar. Querem que a História os abrace sem que eles precisem soltar nada.

Mas a luta das mulheres não é uma terapia de grupo masculina.
Não é um pedido de afeto.
Não é uma reclamação exagerada.

É uma guerra contra uma estrutura que nos quer pequenas, obedientes, caladas e, de preferência, mortas.

E quando levantamos a voz, os homens de florzinha na barba dizem que estamos sendo muito duras.

Talvez sejamos… porque a sociedade foi dura conosco primeiro.

E não há pétala que cubra isso.