Vivo por um fio

Clarice passou a vida inteira convencida de que trabalho bom era trabalho batalhado. Não por pessimismo — por estatística. Na contabilidade da vida dela, toda oportunidade decente vinha acompanhada de dez anos de ralação, três portas na cara e uma humilhação de cortesia. De modo que, quando a proposta chegou sem edital, sem seleção, sem prova de fogo e sem aquele “a gente ainda vai decidir e te avisa” que costuma significar “nunca mais falamos”, Clarice desconfiou. Desconfiou com a mesma intensidade com que um cachorro de rua desconfia de um bife no chão: cheira, recua, cheira de novo. Coisa boa que vem de graça sempre tem dono, carrapato ou validade vencida.

Era um grupo de senhoras.

Um grupo de senhoras muito legais, numa cidade vizinha, daquelas que a gente desce a serra com prazer e não com aquela sensação de estar indo pagar penitência em horário comercial. As senhoras eram diferentes entre si — de idades, de histórias, de opiniões — mas, combinavam muito numa coisa: delicadeza e generosidade. E uma energia ótima, daquelas que não cansam, recarregam. Clarice, que já dera aula para a fauna humana mais variada possível, olhou para aquele grupo e pensou: bom demais, que trabalho agradável! E, quando a vida entrega algo bom demais, Clarice já sabia, é porque a fatura foi despachada pelo correio e está a caminho.

Toda quinta, bem cedinho, ela descia a serra. Por três quintas-feiras, foi lindo. Na quarta… não houve quarta.

No terceiro dia de aula, num dia de chuva, um empregado da Vivo resolveu fazer jus ao nome da empresa: dirigir como quem quer deixar todo mundo menos vivo. Morava no vale, carregava uma pressa que nem o sinal da própria operadora saberia explicar e decidiu tirar o pai da forca no alto da serra. Para quem não conhece a expressão: é dirigir como se a vida alheia fosse um detalhe de segunda ordem. O cidadão subiu tão rápido que o carro abandonou a condição de veículo e virou peça de roleta. Rodopiou na pista molhada e acertou de frente o carro da Clarice.

Ele saiu sem um arranhão, porque a imprudência, no Brasil, tem passe vip. A física, essa cínica, tem um fraco por recompensar quem causa o estrago. Clarice, que descia a serra respeitando a lei, a prudência e o bom senso — essa tríade que ninguém cobra, mas que ela insiste em carregar —, fraturou o pulso.

E foi aí que a odisseia começou.

Internação. Fila de espera para a cirurgia, daquelas que ensinam paciência até para santo. Depois, a descida para o hospital no vale, que de tão quente parecia um ensaio geral do outro lugar — só que com senha, maca e horário de visita. Mesa cirúrgica. E, no meio do enredo, a colega de quarto faleceu, com uma discrição que Clarice, deitada ali com o pulso quebrado e a paciência em estado de choque, chegou a invejar.

Foi quando Clarice surtou. Não de dor, não de medo. Surto de eficiência. Saiu vagando pelo hospital às oito da noite atrás do médico asiático, determinada a arrancar a alta dele nem que fosse na marra. E recebeu a alta. Porque nem médico asiático argumenta com Clarice quando ela está decidida — esse é um fato da natureza, como a chuva na serra e a conta de telefone que chega em dia.

A volta para casa foi tranquila, graças às amigas — essas instituições que a vida deveria entregar de fábrica, mas que ela distribui só para quem merece. E, no caminho, Clarice foi percebendo que a cirurgia recém-feita era o menor dos seus problemas. O que doía de verdade doía na alma e na linha do telefone: a seguradora da Vivo.

A seguradora da Vivo estava mais morta que viva. Aliás, mais morta que a colega de quarto — que, ao menos, teve a educação de avisar. Silêncio absoluto. Nem retorno, nem desculpa, nem um pio. Nem aquele “sentimos muito pelo ocorrido” padrão, que é mentira mas pelo menos é barulho. O carro da Clarice — que no impacto virou uma sanfona, daquelas que a gente ouve de longe e já reconhece a música: o “tava quase pago” — está vagando de pátio em pátio, à espera de que a Vivo ressuscite. Ou seja: à espera de um milagre.

E Clarice, que nunca foi de esperar milagre, descobriu que seguradora de operadora de telefonia é um conceito tão sólido quanto “sinal completo em dia de chuva”. Todo mundo já ouviu falar. Ninguém nunca viu funcionando.

Agora Clarice está em casa. Sem bordar — o que, para ela, é uma amputação da alma. Sem sair para dar aula. Desmarcando, um a um, todos os compromissos dos próximos dois meses, com a serenidade triste de quem assiste à própria agenda desmoronar em câmera lenta.

E a turma de senhoras bacanas está lá, à espera do retorno dos encontros. Delicadas, generosas, com aquela energia ótima que Clarice nem teve tempo de retribuir direito.

Clarice pensa nelas todos os dias. E promete a si mesma voltar.

Assim que a Vivo ressuscitar — ou assim que o pulso resolver colaborar. O que acontecer primeiro. E, conhecendo a seguradora, Clarice aposta no pulso. E reza — porque descobriu que seguradora faz milagreiro até de ateu. Quanto à Vivo, desistiu de esperar: se a empresa não dá sinal nem no alto da serra, imagina na vida.

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